Cidade Olímpica “para inglês ver”

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Uma expressão do tempo do Império merece ser lembrada a alguns dias do início dos Jogos Olímpicos 2016. O Rio de Janeiro, como sede da maior parte das competições, está ficando lindo de morrer. Mas é só mesmo “para inglês ver”. E é bem no sentido que o dicionário Houaiss a define: “para efeito de aparência, sem validez”.

A percepção desta (des)organização, para um cidadão carioca que mora no bairro boêmio da Lapa, não é de assustar. Digo isto para contextualizar o leitor que o relato mais à frente é do olhar de um morador acostumado a ver a poeira sendo varrida para debaixo do tapete o tempo todo.

Neste sábado, na manhã do dia 23 de julho de 2016, o passeio da Rua do Riachuelo até a Feira de Orgânicos da Glória teve dois momentos. O primeiro, como é comum de se ver no início do dia após as sextas-feiras: muitos boêmios ainda pelos bares, o comércio abrindo as portas e as pessoas começando o movimento natural de passeio com os filhos, levando os animais de estimação para passear e, assim como eu, indo à feira. O outro, era a desordem e o caos diário de pessoas sem teto dormindo na rua.

Arcos da Lapa é um dos pontos mais visitados pelos turistas

Quem conhece o trajeto sabe do que estou falando: ao passar por debaixo dos Arcos da Lapa em direção à Glória percebe-se que o trecho que divide o Centro da Zona Sul é um pedaço do Rio que mistura a cena cultural do local com a de muitas outras mazelas de qualquer cidade grande. Mas é este ponto que merece ser lembrado. Por que não arrumar a casa todos os dias? Vai deixar para varrê-la somente em dias de visita?

Na volta da feira para casa, cerca de uma hora depois, e, claro, depois que a vida começa a ganhar a dinâmica da agitação normal de um sábado, o caminho parecia começar a ficar pronto para receber os visitantes: não havia mais pessoas dormindo na rua e os guardas municipais faziam a ronda para garantir a segurança dos turistas que já estão pela cidade. Até os pouco esquecidos orelhões que estão pelas ruas ganhavam uma caprichada no visual.

Diante de algumas teorias que explicam o sentido da expressão “para inglês ver”, fico com os valores negativos que ela traz quando as pessoas hoje a usam: demagogia, hipocrisia e mentira. Nós, cariocas, sabemos quando determinada coisa é ou funciona de um modo, quando, na verdade, não é bem assim no dia a dia.

Mas o registro aqui fica mais como um estímulo aos moradores que não estão de passagem. Vamos cobrar das nossas autoridades um Rio de Janeiro que as crianças, os jovens e os idosos possam ver como um espaço saudável de convivência, de oportunidades e, acima de tudo, de segurança para viver.

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